quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Recém-licenciados das TI não sabem produzir sistemas de informação

Uma das conclusões mais chocantes do recente trabalho "Competências a reforçar na formação dos profissionais de TI em Portugal", do Grupo de Trabalho das Competências, da ANETIE é que os recém-licenciados não sabem o suficiente sobre construção de interfaces nem sobre produção de informação.

Não conheço estatísticas sobre esta matéria. Mas julgo que não estará muito longe da verdade a afirmação de que mais de 90% dos licenciados em cursos ligados às TI estarão envolvidos profissionalmente na produção ou exploração de Sistemas de Informação de Gestão. Isto é: bases de dados, formulários electrónicos, relatórios operacionais ou analíticos, troca de informação entre sistemas, etc..

Ora o que a ANETIE apurou junto dos seus associados é que entre as maiores lacunas encontradas nos licenciados do sector que se vão depois dedicar à engenharia de software, os conhecimentos sobre coisas básicas como écrans de entradas de dados e emissão de relatórios são extremamente baixos.

Outra queixa frequente das empresas é a falta de domínio da Língua Portuguesa. Não posso senão concordar. Nesta era da Internet, escreve-se e lê-se mais do que nunca, mas a qualidade da escrita e da interpretação está a baixar de forma preocupante. A iliteracia funcional, alastra mesmo ao pessoal que chega ao nível de uma licenciatura, e a responsabilidade de resolver o problema deve ser assumida por toda a sociedade.

O trabalho realizado pela ANETIE hierarquizou as lacunas na formação em três carreiras distintas: engenharia de software, engenharia de sistemas e comercial. Para as três carreiras, as empresas destacam uma lacuna comum: a falta de competência em normalização e processos, que se associa às questões das normas de qualidade, maturidade, gestão do serviço, etc., e que está relacionada com a imagem projectada pela empresa e também com a sua eficiência.

No quadro geral das lacunas encontradas na formação dos profissionais de TI, a ANETIE apurou que deverá haver uma maior preocupação com as soft-skills. O topo da tabela geral de preocupações ficou assim:
  1. GESTÃO POR OBJECTIVOS
  2. GESTÃO DE EQUIPAS E LIDERANÇA
  3. COMUNICAÇÃO ESCRITA
  4. COMUNICAÇÃO PRESENCIAL
  5. NORMALIZAÇÃO E PROCESSOS
  6. MELHORIA CONTÍNUA E INOVAÇÃO
  7. PENSAMENTO CRÍTICO
  8. SEGURANÇA
  9. GESTÃO DE CONFLITOS E INTELIGÊNCIA EMOCIONAL
  10. ARQUITECTURAS E SISTEMAS DISTRIBUÍDOS
Para quem não tiver tempo para ler o Relatório, sugere-se a leitura do excelente resumo produzido pela Semana Informática nº 868.

Concorrência global - resistiremos?

À minha mailbox profissional chegou hoje um email que me foi dirigido por uma empresa de outsourcing TI indiana. Já não é a primeira vez que recebo emails deste género. Mas é a primeira vez que o email é dirigido à minha pessoa e não a qualquer endereço genérico da empresa.

A oferta desta empresa é simples: colocam pessoal no país por pouco mais de metade do preço do mercado. Dão-se ao luxo de prometer que o técnico que nos disponibilizam trabalhará 9 horas por dia e 5 dias por semana e não hesitará em trabalhar horas adicionais mesmo que tenha que ser ao sábado ou domingo, se o trabalho exigir.

Na India, empresas de outsourcing como a Infotech empregam dezenas de milhares de técnicos e prestam serviços globais a centenas de empresas. Em 2004, o salário de um recém-licenciado na India era de $5.000 por ano e ao fim de alguns anos de experiência poderia estar a ganhar o dobro. Os salários têm vindo a subir, mas ainda estão muito longe dos praticados na Europa e EUA, permitindo às empresas indianas dar-se ao luxo de oferecer serviços a "metade do preço" e ainda ganharem muito dinheiro.

Nem tudo são rosas, no entanto. A qualidade dos serviços, factor largamente influenciado pela cultura e experiência de vida de quem os presta, deixa bastante a desejar. O boom inicial de off-shoring do início do milénio abrandou. Mas as empresas aprenderam as suas lições. Nesta altura já não argumentam só pelo preço. Apostam na qualidade dos seus processos e pessoal. E o outsourcing para Índia continua a crescer.

A colocação de pessoal no país da prestação de serviços é mais uma novidade. Entre outras vantagens os técnicos aprendem mais rapidamente a cultura do país do cliente mas, obrigados por um contrato estabelecido no país de origem, trabalham o que for preciso, por salários miseráveis.

Em vista desta situação, que esperança há para as empresas de TI nacionais? A exaustão do mercado dos EUA começa a tornar atraentes mercados até agora ignorados como o nosso. As empresas indianas já começaram a fazer prospecção (ainda no mês passado uma missão empresarial indiana veio sondar o mercado nacional das TI).

Concorrendo com empresas globais, fortes no preço e com uma oferta de qualidade crescente, que futuro haverá para as empresas e técnicos de TI portugueses? Seremos capazes de melhorar a nossa competência e produtividade de modo a conseguirmos resistir? Teremos inteligência e energia para tal?


(continua)


"Queres copiar sem seres apanhado?"


Estão aí os vendedores de ciber-cábulas.

Em resposta a um sistema de avaliação irrealista, onde a classificação dos alunos depende demasiado da sua capacidade de memorização, os alunos acham-se muitas vezes no direito de copiar nos testes. Agora há quem se aproveite disso para ganhar dinheiro.

Esta manhã encontrei na caixa de email geral da empresa um email cujo assunto é "Queres copiar sem ser apanhado?". Obviamente que quem mandou este email sente-se no direito de ganhar dinheiro com a perversão do sistema de ensino. E ao enviar este email indiscriminadamente para endereços que na sua generalidade não são de estudantes, estes vendedores de tretas contam com a passividade generalizada em relação ao problema.

Já é mau que os estudantes usem cábulas, mas assim nem sequer têm que as fazer. Ora fazer as cábulas é, muitas vezes, a única ocasião em que os alunos mais preguiçosos de facto estudam alguma coisa.



"Demonstra que és inteligente", é outra das pérolas de marketing da empresa que envia este email. Os estudantes que se julguem menos inteligentes podem até ser tentados a tentar fazê-lo desta forma. Mas a verdade é que a preguiça nunca será uma boa aliada do sucesso.

Nunca é demais recordar que os jovens portugueses foram classificados como dos mais ignorantes, num ranking apresentado há alguns meses pela OCDE. Temos que compreender que a cábula, o copianço e o foco na qualificação vazia de competência são algumas das grandes causas deste problema.

O "canudo" só serve para alguma coisa se vier acompanhado de capacidade de fazer coisas com valor.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Horário de trabalho

A trabalhar há dois meses na Irlanda, ando para escrever alguns apontamentos daqui de Dublin, mas são tantos e tão diversos que há matéria aqui para escrever um blog inteiro (e talvez ainda o faca se a inspiração vier em meu auxílio). Há no entanto uma diferença que encontrei por aqui que é muito mais marcante do que eu poderia supor poder ser, e lembrei-me deste ponto que talvez se acomode bem neste blog e no tipo de posts que por aqui há. Falo do horário de trabalho.

O horário que por aqui se pratica, e que suponho generalizado, é de entrar as 9h e sair as 17h, com meia-hora de almoço. Ou seja, 7 horas e meia. Ou seja, meia-hora de diferença para o horário "normal" de Portugal. E que diferença que essa diferença faz...

Os irlandeses não são muito "fanáticos" com o trabalho e os horários, não se trata de regimes "autoritários" como parece ser em Inglaterra ou na Alemanha - a propósito, sabem que os alemães dizem que na Alemanha a taxa de criminalidade é baixa porque lá o crime é ilegal?

A primeira impressão que tive dos Irlandeses foi efectivamente de que eram um bocado como os ingleses, em termos de "formalismo metódico", "profissionalismo", "responsabilismo", mas ao mesmo tempo mais "relaxados", mais "descontraidos", mais "laissez faire, laissez passé", enfim, numa palavra, mais "latinos". O que me estranhou, já que contava mais com uma cultura bem "britanizada", mas enfim, se até o próprio Bono diz que "Irish people are essentially Latin people who don't know how to dance", quem sou eu para o contradizer...

Assim, não é de todo infrequente que surjam alguns pequenos atrasos, mas em geral pelas 9:10 o mais tardar já está toda a gente no trabalho, e fazendo equipa com um italiano, dois espanhóis e uma irlandesa decorre que por grande maioria decidimos sempre ir tomar um bom café, que levamos de casa e fazemos nós numa típica cafeteira, de outro modo é impossível beber-se bom café. Quer isso dizer que trabalho mesmo só lá prás 9:30. Lá pró meio-dia e meio vai tudo almoçar e lá prá uma e tal trabalha-se outra vez.

Já em Portugal, entre café e futebol e atrasos começa-se a trabalhar efectivamente para aí as 10 horas, com sorte! Ao meio-dia já está tudo a pensar no almoço, onde se vai perder uma hora desnecessariamente, até porque com os salários que os patrões nos pagam quem é que tem dinheiro para almoçar todos os dias num restaurante "decente" a comer uma refeição digna desse nome? De modo que lá pras duas volta-se a ir trabalhar para fazer o meio dia da tarde...

E é aqui que a magia acontece! Começa-se a trabalhar aqui lá prá uma e tal de tal modo que a primeira vez que se olha para o relógio depois de um boa sequência de trabalho, já são três e tal, ou seja, quase a entrar na ultima hora de trabalho. E pensa-se "olha que fixe, deixa cá continuar com o trabalho pra estar tudo feito a horas"... E assim, com uma pausa colectiva nos dias mais frios para beber um cházinho por volta das 4, as 5 está tudo "packed and ready to go"!

Já em Portugal, na mesma situação, o que acontece? Uma pessoa olha para o relógio, são as mesmas 3 e tal, mas pensa-se "porra, estou farto de trabalhar e ainda falta mais de metade da tarde pra sair!!!" E pronto, está tudo estragado! Para espairecer o espírito vai-se tomar um café, ler uns emails, quarto-de-banho, emails, as ultimas do futebol e volta-se a trabalhar sem vontade nenhuma, só a espera que chegue as 6 da tarde. E normalmente com isto tudo o trabalho acaba por atrasar, chega-se as 6 horas e ainda não se terminou, fica-se mais uma horita pra não apanhar muito transito, sai-se as 7 e está imenso transito, chega-se a casa lá pra 8 e nada mais resta que jantar e com sorte tem-se uma horita para a "vida pessoal" antes de ir dormir.

Bom, "to cut a long story short", conclui-se sem necessidade de extremo raciocínio que na Irlanda, com 7,5 horas de trabalho "nominal", se tem pelo menos umas 6,5 horas completas de trabalho "efectivo", ou seja, uma produtividade de quase 90%, enquanto que em Portugal, com 8 horas, temos para aí umas 5 horas, 5 horas e meia de trabalho produtivo na melhor da hipóteses, ou seja, pouco mais de 60% de produtividade. E nem estou a falar da função pública...

E nem estou a falar, principalmente, da grande vantagem que se tem de chegar a casa as 6 da tarde depois de um dia de trabalho, ou de ir ao centro comercial ver as ultimas novidades dos laptops e consolas e ainda chegar a casa as 8, bem a tempo de jantar, ou de ir até ao "pub" beber umas "pints" de Guiness e ainda chegar a casa as 8, bem a tempo de jantar, ou até, porque não, fazer essas coisas todas de seguida ou outras que vos aprove, e ainda ter a benesse de poder dormir uma noite completa de 8 horas. Ou de 7,5 horas como se faz aqui...

"Bottom line", porque não tentar ao invés de tanto ao estilo português, estar a pedir todos os anos um "aumento" aos patrões, porque não, dizia, pedir antes uma "diminuição"? Uma diminuição do horário de trabalho, com um aumento de produtividade na empresa e uma melhoria substancial da "qualidade" da "vida pessoal" de cada um, caramba, isto é uma "win-win situation"...


P.S. - Peco desculpa aos "patrões" que por aqui há se lhes estou a causar inconvenientes...

:)