terça-feira, 12 de junho de 2012

Estratégia: Tecnologia versus Agricultura

O actual governo parece ter decidido que a nossa agricultura é prioritátia. Aparentemente, as hordas de jovens desempregados devem regressar aos campos de onde os seus avós saíram cheios de fome à procura de emprego na cidade. O facto de a mecanização ter reduzido ainda mais o valor do trabalho agrícola desde então é, nesta estratégia, ignorado.

Portugal, nos últimos anos, tem feito um forte investimento no aumento de competências da sua população. Há um par de anos conseguiu-se, para surpresa de muitos, equilibrar a balança de pagamentos tecnológica - exportámos tanta tecnologia como importámos. A ciência e a tecnologia são e serão a base de todo o desenvolvimento da Humanidade. As empresas tecnológicas portuguesas, apostando na internacionalização, precisam de recursos competentes e em boa quantidade. Apesar disso, os cursos profissionais tecnológicos são abandonados por este governo, cuja prioridade passa a ser a agricultura, a caça e a pesca. E os bons cursos universitários, sem apoio do Estado, terão tendência a desaparecer ou voltar a ser exclusivos para as elites bem nascidas. O que só poderá trazer um resultado: o aumento da dependência tecnológica do País.

Os actuais governantes portugueses deviam ler um livrinho chamado "Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico", publicado em 1945, escrito por um grande cientista português: Orlando Ribeiro. Neste livro, o eminente geógrafo explica grande parte dos motivos da nossa cultura humilde e pouco ambiciosa. É que o principal factor para o português se contentar com pouco é ambiental. Portugal, apesar de estar voltado para o Atlântico, sofre dos constrangimentos ambientais de todo o Mediterrâneo: solos pouco produtivos, pouca água, pouca fauna. Ao sugerir que os jovens portugueses devem voltar "à terra", abandonando a ciência e a tecnologia, o governo propõe que a economia Portuguesa volte a estar dependente dos nossos parcos recursos ambientais.

É certo que programas como o "Novas Oportunidades" estavam cheios de falhas graves na sua implementação. O principal problema sempre foi a confusão (conveniente) entre certificação e competências. Ao dar o 12º ano a pessoas que não aprenderam o mínimo estamos apenas a trabalhar para as estatísticas da OCDE. Isto é, simplesmente, publicidade enganosa ao País. Sem procurar qualquer justificação, devemos no entanto recordar que o "Novas Oportunidades" era pôr em prática, ao nível governamental, aquilo que já muitas universidades privadas faziam há anos, vendendo canudos sem qualquer valor.

Erros como a implementação do "Novas Oportunidades", no entanto, não nos devem afastar do desígnio de aumento de qualificação dos portugueses. A única forma de nos libertarmos da nossa dependência é através do aumento de competências da população em geral. É preciso dinamizar as Pescas e a Agricultura, sim, mas não podemos abandonar o caminho da Ciência e Tecnologia.

Não haverá qualquer hipótese de sermos bem sucedidos em qualquer campo, sem aumentarmos o investimento do Estado na Educação e na Investigação Científica e Tecnológica.

Por mais difícil que esteja a vida nas nossas cidades, não tenhamos ilusões. O regresso ao campo não é solução para a grande maioria dos desempregados. A solução é a procura de competências de valor, a flexibilidade no nosso trabalho e a internacionalização das nossas empresas.